terça-feira, 9 de novembro de 2010

Mulheres no Comando do Cinema entrevista com Vivi Amaral

Mulheres no Comando, sempre...hoje entrevistamos a Vivi Amaral, mulher no comando do cinema!! Já falamos dela aqui no blog, clique aqui para relembrar

Confira com exclusividade e conheça um pouco mais desta mulher super atuante no mundo do cinema:

MNCS: Vivi conte um pouco de como começou a sua paixão pelo cinema como foi esse primeiro contato.

VA: Vejo filmes desde que me conheço por gente. Meu pai foi o grande incentivador para que eu virasse uma cinéfila.

Todos os sábados de manhã ele me levava nas locadoras e alugávamos uns quatro ou cinco filmes para o fim de semana. Antes eu ia e ficava viajando com as capas dos VHS - “A Casa do Espanto” era uma das minhas favoritas – depois, quando fui ficando mais velha, ajudava ele a escolher os filmes. Hoje, toda a sexta ele me pede as dicas de filmes que estão sendo lançados na semana.

Minhas tardes pós-aula também eram de filmes. Acompanhava a semana toda a “Sessão da Tarde” ou o “Cinema em Casa”.

MNCS: E o terror (fantástico), sempre teve mais interesse por esse gênero? 

VA: Sim, o gênero fantástico é meu favorito, mas o terror é a menina dos meus olhos. Sempre, desde de pequena, tive paixão por dar sustos/ver outros se assustando e monstros.

Chegava a passar o dia inteiro planejando o susto que daria na minha mãe quando chegasse em casa. Vivia falando pra criançada na rua que o Freddy Krueger morava no sótão de casa. Brincava de castelo assombrado com velas e quase incendiei a casa algumas dezenas de vezes.

E o curioso é que ficava encantada em ver os filmes de horror. Freddy era minha relação de amor e ódio. Adorava ver os filmes, mas de noite corria chorando pro quarto dos meus pais. 

MNCS: Como surgiu a idéia do Festival, hoje Cinefantasy, veio por conta de uma carência que percebeu neste genêro?

VA: Com certeza. O gênero fantástico precisa de duas coisas aqui no Brasil: incentivo à produção nacional e formação de público. E o Cinefantasy surgiu justamente para cobrir essa carência. Queremos ajudar a criar um mercado em que realizadores de filmes de gênero possam viver de fazer cinema. Se vamos conseguir chegar nesse mercado esperado, não sei, mas iremos tentar.
Isso não é uma situação restrita ao cinema fantástico.


O cinema brasileiro conta com poucos profissionais que podem dizer que vive de fazer cinema.

Quando começamos o festival, encontramos o cinema fantástico brasileiro com uma maioria de produções caseiras e com cara de caseiras. Hoje, já temos um número considerável de produções amadoras que podem tranquilamente concorrer com produções profissionais (estas que, aliás, aumentaram dentro do fantástico) e estrangeiras.

Esta qualidade está atraindo um público maior, além dos olhos de festivais tradicionais que antes ignoravam o gênero fantástico.

MNCS: Hoje o Festival tomou porpoção internacional tornando-se referência, como é, você sendo idealizadora e organizadora "assistir" a tudo isso. O público, a mídia....

VA: Uma sensação muito boa. É ótimo ver que um trabalho (e bota trabalho nisso hehe) que dura o ano todo, deu certo, foi aceito e reconhecido.

Ver o público descobrindo o festival, curtindo filmes que raramente chegariam às telas brasileiras e ver os realizadores que cresceram junto com o festival fazendo exibições internacionais, nos dá orgulho e combustível para continuarmos na luta.

MNCS: Você já sentiu-se presionada por ser mulher e estar na organização de um grande Festival voltado para este genêro?

VA: Aff... muitas vezes! E vou te falar, é algo que me irrita profundamente.
É impressionante, mas em pleno século 21, ainda existe preconceito contra as mulheres.


As pessoas costumam achar que o organizador do festival é o Eduardo e eu sou só a namorada dele. Mesmo eu sendo a “fan girl” da dupla, bitolada pelo gênero fantástico, a responsável pela curadoria internacional do festival, ainda acham estranho que uma mulher esteja por trás de um festival que tem filmes de horror e ficção científica.

Não é por mal, mas as pessoas acham que só existe a imagem tradicional da mulher que só sabe falar de comédias românticas com a Jennifer Aniston ou Julia Roberts, maridos, filhos e sapatos.

Gosto de sapato, amo um salto, curto passar horas cuidando do meu cabelo, grito e choro quando vejo uma barata, adoro falar de novas dietas, tratamentos estéticos e me maquiar quando o trânsito trava em São Paulo, mas também amo jogar Tekken,  God of War, Prince of Persia e Guitar Hero e amo ir com os amigos no boteco, comer botequices e falar botequices.

Hoje em dia, não há espaço mais para os rótulos e personagens planos. Todos e todas carregam suas diferenças e deveriam sentir-se livres pra ser do jeito que é.

Lido sempre com essa mentalidade de que a mulher deve gostar e se ater a coisas consideradas de mulher. É freqüente alguma mulher vir me “resgatar” de uma roda masculina onde o assunto é filmes de horror ou o próximo lançamento de game  (se o assunto é futebol, sou a primeira a sair) com a frase, “vem cá estamos falando de coisas de mulher” ou algo do tipo.  A intenção é bonitinha, mas a idéia embutida nessa ação me remete aquela sociedade machista em que as mulheres DEVERIAM ficar na cozinha com as crianças enquanto os homens se divertiam na sala.

E hoje, acho que, independente de ser mulher ou homem, a pessoa tem a ESCOLHA de ficar onde quiser, falando o que quiser e com quiser. Sem regras.  
O Eduardo é muito legal nesse ponto e sempre levanta minha moral quando alguém me isola da conversa sobre o Cinefantasy ou algum projeto de filme de horror. Um amorzinho :-)

Mas uma coisa é curiosa nisso, percebi que essa pressão é mais forte no Brasil. Muitos estrangeiros com quem falo sobre o festival lidam naturalmente com uma mulher nessa área.

MNCS: Agora conte um pouco sobre a Vivi diretora e produtora da Fly Cow.

VA: Bom, antes do festival, minha proposta de vida era me tornar a versão brasileira e com cintura do Peter Jackson  (risos)

Mas organizar o Cinefantasy toma muito tempo durante o ano todo, e meu sonho de dirigir um filme teve que esperar um pouco, mas acho que em breve eu posso debutar nos telões :-)

O Donny, diretor e roteirista do curta, me apresentou o roteiro, pois o Edu e eu estávamos querendo produzir algo pela produtora. Como era uma filmagem relativamente fácil, resolvemos fazer. Eu que tava na fissura por um pouco de ação, acumulei funções. Fui assistente de direção, pitaqueira de plantão e editora do filme. O Edu foi o produtor.

Foi muito legal trabalhar com o Donny, gosto das idéias subversivas e doidinhas (risos), isso foi fundamental pra o filme sair tão instigante como saiu. Claro, sem contar o Ginco, que faz o personagem principal, e deu um show de atuação que deixou todos os envolvidos na produção de boca aberta.

Adorei o resultado final do curta, mas não esperava que, já de cara, emplacássemos o Totem na Mostra Internacional de SP.
Isso nos deixou muito felizes e prontos pra começar as próximas filmagens.
MNCS: Festival..produção...e um blog...como é seu trabalho no blog, conte sobre o que escreve, como seleciona as notícias.

VA: O lance do blog Páprica/Cultura Pop começou meio sem querer. Como passo os dias na web atrás de novidades do cinema por causa do festival, comecei postando essas novidades no twitter.

Então, um amigo que escreve para o blog Sedentário&Hiperativo, o Raphael Draccon, me indicou para escrever sobre cinema na área de cultura pop do S&H.

Achei bacana e comecei a postar. Hoje, tento postar uns dois artigos por dia. Tento variar entre assuntos populares e achados que faço pela web.

Evito postar assuntos que parecem boatos da mídia, prefiro falar de novidades confirmadas. Como não tenho obrigação de postar direto, posso escolher o que realmente me chamou a atenção.

MNCS: E agora qual a próxima empreitada?

VA: Esse momento do ano, entre o fim de uma edição do Cinefantasy e o começo de outra, consigo pensar em outros projetos. Estou com outro bom roteiro do Donny nas mãos e tenho mais um de próprio punho. Provavelmente, esses dois vão tomar meus próximos meses de férias.

MNCS: Não poderia deixar de te pedir algumas dicas de filmes, claro para quem curte ou quer conhecer mais o fantástico.

VA: Hum, deixe-me ver... bom tem os clássicos como o trio do  Kubrick (O Iluminado, 2001: Uma odisséia no Espaço e Laranja Mecânica) e os da sessão da tarde (As Sete Faces do Dr. Lao, Os Gonnies, Os Fantasmas se Divertem e História Sem Fim) para quem quer conhecer.
 De filmes mais novos tem os belíssimos “Labirinto do Fauno”, “Dublê de Anjo” e “Deixe Ela Entrar”; três interessantes representantes da ficção científica são “Cidade das Sombras”, “Filhos da Esperança” e “A Origem”; e os filmes que me deram vontade de correr pro quarto dos meus pais foram “REC”, “Ringu” e um curta chamado “The Cat with Hands”.