quarta-feira, 25 de julho de 2012

Depois de chegarem às finais do festival de música pop Eurovision cantando rock, o grupo de oito senhoras ganhou fama. Tudo para reconstruir a igreja do vilarejo onde moram


Oleg Nikishin/The New York Times

Durante anos, Buranovo foi um vilarejo agonizante, um entre muitos no interior da Rússia que foram deixados para trás pelo boom impulsionado pelo petróleo, que levou os jovens a abandonarem as fazendas que sustentaram seus pais e partirem para grandes e sombrias cidades soviéticas.

As Buranovskiye Babushki testam seu novo figurino de palco em Buranovo, na Rússia, depois de virar hit no Eurovision.

Em lugares como Buranovo, é comum as fazendas coletivas falirem, casas de madeira se inclinarem e afundarem no solo, as estradas virarem ravinas enlameadas e as lojas dos vilarejos sobreviverem da venda de vodca. Interromper o ciclo de declínio é considerado difícil, se não impossível.

Porém, Buranovo, com 300 anos de idade, está demonstrando ser uma exceção, pelo motivo mais improvável: um grupo de oito mulheres locais, muitas das quais velhas e encurvadas, conhecidas como Buranovskiye Babushki (as vovós de Buranovo), que abriram caminho para a fama instantânea, em maio, cantando no festival de música pop Eurovision.

As vovós - a mais velha tem 86 anos - ficaram em segundo lugar no concurso anual, que coloca cantores de países europeus uns contra os outros e prende a atenção do continente a cada primavera.

As senhorinhas com vestidos e lenços e tradicionais apresentaram um rock 'n' roll que convidava o mundo a rir, enquanto sorriam graciosas, arrastando os pés pelo palco, cantando em altíssimo e bom som sua versão para um hino festeiro, com direito a refrão em inglês: "Party for everybody – dance! Come on and dance! Come on and dance! Come on and boom boom!'' (Festa para todos – dance! Venha e dance! Venha e dance! Venha e bum, bum!)

Além dos mais de cem milhões de telespectadores que acompanharam o grupo, o vídeo da apresentação virou um sucesso na internet.

A boa sorte das vovós não apenas está transformando suas vidas como também a de Buranovo. Para valorizar a quase vitória da trupe, o governo municipal está construindo um aqueduto, instalando iluminação pública e cascalho nas ruas principais, além de disponibilizar internet de alta velocidade para a única escola da vila.

"Deus se esqueceu deste lugar antes de as vovós cantarem", disse Aleksandr Malkov, diante de sua casa, enquanto observava caminhões-plataforma rodarem rua abaixo com um cano para instalar o sistema de distribuição de água. É difícil exagerar o impacto dessas melhorias.

Como boa parte do interior russo, Buranovo é a um só tempo pitoresca e cenário da penúria rural. Os moradores subsistem do gado leiteiro, hortas e comida coletada na floresta, como mel e cogumelos. Numa visita recente, o vento formava ondas num mar de centeio verde; a parte da frente das casas continha pilhas gigantescas de lenha de bétula.

Veja o vídeo com as Buranovskiye Babushk


Para Olga Tyurikova, vizinha que alimentou as galinhas de uma das vovós durante o concurso Eurovision, o grupo salvou a vila. "Se não fossem as 'babushki', ninguém nem saberia que não havia água em Buranovo", ela disse. A maior parte do vilarejo nunca teve água corrente.

Tudo começou com um milagre, contou Olga N. Tuktareva, a líder do coral, que tem 43 anos e, na verdade, ainda não é vovó.

Tuktareva relembrou de quando caminhava pela vila com uma amiga, em 2008, e lamentou um episódio triste da história local, a destruição da Igreja da Trindade, derrubada como muitas outras igrejas durante o governo de Stalin.

Depois do sucesso, as velhinhas russas mudaram o figurino e repertório, com muito mais rock.

Construída em 1901, ela contava com três altares, dedicados à Santíssima Trindade, ao arcanjo Miguel e ao profeta Elias. Comissários do partido fecharam a igreja em 1937; 12 anos depois, uma equipe em busca de petróleo na parte superior da bacia do rio Volga derrubou a igreja e levou os tijolos para construir alojamentos para os trabalhadores.

Segundo Tuktareva, durante aquela caminhada, seu celular tocou. Era um produtor musical de Moscou que havia ouvido falar das vovós cantoras – elas se apresentavam em escala regional – e tinha uma proposta: se o grupo cantasse a música "We Are the Champions", do Queen, no idioma local, o udmurte, a um público de executivos do petróleo na capital do país, o produtor pagaria bem.

Tuktareva conta ter achado estranho. "Eu mal terminara de falar que era impossível reconstruir a igreja quando meu telefone tocou. Não foi um acaso." Depois disso, o grupo ganhou alguma fama cantando músicas dos Beatles, Deep Purple e Eaglesem em udmurte. As integrantes – todas mulheres muito religiosas que tiveram de esconder a fé durante a era soviética – criaram um fundo para reconstruir a igreja.

As "babushki" disputaram uma competição para representar a Rússia no Eurovision, em 2010, mas como ainda não eram um grupo de rock, não foram escolhidas. Elas concorreram com uma música chamada "Como transformar casca de bétula em chapéu".

Como a canção ficou chocha, elas perceberam a necessidade de serem mais engraçadas e usarem mais o inglês. Elas cantaram "Party for Everybody", música com letra de Tuktareva em udmurte e de Mary Susan Applegate, letrista do Modern Talking e outros grupos de música pop, em inglês.

Enquanto as mulheres estavam em Baku, Azerbaijão, para o concurso Eurovision deste ano, foi construído o alicerce da igreja com o dinheiro já arrecadado pelo crescente fundo das vovós. Quando voltaram, foram escoltadas por um comboio policial do aeroporto regional; o emaranhado de aço e concreto as esperava.

"Nós rezamos e choramos", contou Tuktareva.
Natalia Y. Pugachyova, integrante do grupo batizada na Igreja da Trindade original na década de 1930, trabalhou durante décadas numa granja de criação de porcos antes de ficar famosa. "A vida era daquele jeito", disse.


As componentes não ganharam dinheiro diretamente do Eurovision, nem para o fundo da igreja nem para si mesmas, mas recebem muito bem pelos shows e se pagam um bônus. No vilarejo, a fama está mudando suas vidas. Depois do Eurovision, escolas situadas a vários quilômetros de distância têm enviado turmas de alunos em excursões para visitarem suas casas.

As vovós afirmaram ter mantido a religião em segredo a vida toda, mas nunca esperavam que a igreja fosse reconstruída.

"Eu tinha a visão de que algo mudaria em nossa vila", declarou Alevtina Begisheva, 60 anos, uma das cantoras. "Contudo, nunca imaginei que teríamos nossa igreja de volta dessa forma."